Três projectos de vida, uma pessoa!

O pai queria que o filho fosse rico comerciante.
A sociedade do seu tempo seduzia-o a ser glorioso cavaleiro.
Deus chama-o a viver no seguimento de Cristo, pobre e crucificado.

O itinerário de Francisco começa aqui, por detrás do balcão da loja das “vaidades do mundo”, às quais o seu pai, Pedro Bernardone, um dia, tentou, por palavras ou à pancada, reconduzi-lo. Parecia, num primeiro momento, que este seria o seu projecto natural: ocupar o seu lugar na empresa comercial do pai, seguir o exemplo paterno, “comerciante sagaz e ambicioso, que teria sido o artífice da fortuna familiar".

De facto, nas aspirações do pai, Francisco estava destinado a tomar as rédeas da grande empresa comercial da família. Contudo, este não será o projecto assumido pelo santo de Assis, o de ser um “alter-Bernardone”, até porque Francisco é mais alegre e generoso, pouco identificado com o pai que era mais preocupado em acumular bens e aumentar os seus negócios e a sua fortuna, ainda que ocupasse uma “posição legalmente e juridicamente precisa, a de comerciante e mais ainda rico comerciante, tanto de ser de facto, se não de direito, agregado aos cavaleiros, à outra condição de que era privado de todo o status regularmente reconhecido”.

A ambição cavaleiresca de Francisco – expressão de uma das esperanças da burguesia medieval que era o acesso à nobreza e o desejo de aventura presente em toda a literatura cavaleiresca – era possível de concretizar-se, não por pertença à classe social dos nobres, mas sim devido à condição económica da família de Francisco e do próprio Francisco. Tal condição diferenciava-os da nobreza apenas no plano social, pela distinção nítida, ainda existente, entre as três “ordens”, nas quais se dividia a sociedade. Mas, na medida em que os ricos burgueses acabavam por ter um teor de vida identico e muitas vezes superior ao da nobreza, por causa da sua capacidade financeira, esta distinção tinha tendência a perder os seus efeitos classistas.

Riqueza e glória eram o seu poder e a sua ambição. Mas, um dia, chegado a Espoleto, um sonho marcará o início de uma reviravolta de todos os seus sonhos cavaleirescos, na qual a riqueza se converterá em pobreza e a glória das armas em cruz.

Deus interpela Francisco e convida-o a deixar o servo para seguir o senhor. Ele deveria corrigir a interpretação que havia dado à visão do palácio grande e encantador cheio de armas. Não se tratava de satisfazer as suas ambições de prosperidade temporal, a glória do mundo, mas de conhecer a vontade de Deus, a qual, alcançado, haveria de mudar totalmente os seus desejos segundo a carne.

Daí em diante, no silêncio da sua consciência, Francisco esperava que Deus lhe desse um sinal, que lhe fizesse saber qual a Sua vontade. Procurava-O, não na confusão do mundo, mas no segredo da sua oração, no íntimo da sua alma invadida pela doce presença do seu Senhor, Jesus Cristo. E tão forte era esta presença que Francisco a exprimia na grandeza da sua generosidade para com os pobres: ele que “desde longa data, era o benfeitor dos pobres, gravou mais profundamente no seu coração a resolução de nunca dizer não ao pobre, que lhe pedisse esmola em nome do Senhor, e distribuir esmolas mais abundantes que habitualmente”.

Lentamente e secretamente se preparava a natureza do servo de Deus capaz de não só dispor da sua riqueza, a fim de partilhá-la com os desafortunados deste mundo, como aliás o fazia, mas também e sobretudo de dar-se a si mesmo para acolher o pobre na sua vida, abraçando-o e beijando-o fraternamente, como acontecerá no célebre encontro com o leproso!

Voltaremos a este encontro, pois trata-se de um momento humanamente profundo e válido que é o da compreensão do duplo sofrimento da alma - a lepra da alma - e do corpo.

A beleza de um encontro

São Francisco de Assis tornou evidente a sua ardentíssima fé. Os seus gestos e as suas acções eram a imediata expressão do seu sentimento amoroso por Jesus crucificado. O seu anúncio evangélico era verdadeiramente «sem comentários», não tinha necessidade de comentar. Falava numa só língua, não apenas com as palavras, mas também com os gestos e os actos. Com o desnudamento público fica clara a sua vontade de renunciar a todo o tipo de paternidade natural. No abraço ao leproso exteriorizou a caridade intrépida do cristianismo mais heróico. Tomando como hábito um simples burel em forma de cruz, cingido à cintura por uma corda, mostrou a recusa a todas as ambições mundanas. E a última de uma série de sacras representações, foi a de querer morrer nu sobre a terra nua. Ora, tudo isto foi possível graças àquele encontro, diante do crucifixo de São Damião, cuja beleza se manifesta na moção do Espírito que o conduziu à mais altíssima conformação com Cristo.

Epifania: a manifestação da Luz

O humano é um ser cavernoso. Platão afirmava que moramos no interior de uma caverna escura, mas eu afirmo que nós somos a própria caverna. Pois, entre as muitas imagens utilizadas para descrever o espírito humano, gostaria de acrescentar mais esta: a nossa personalidade se assemelha a uma imensa rede de cavernas, com galerias se ramificando em muitas direcções, com muitas câmaras desconhecidas, algumas muito profundas e de difícil acesso, uma boa parte delas permanecendo imersa na mais absoluta escuridão. Essa rede de cavernas que é a nossa personalidade e espírito humano não nasce pronta. Ela é construída ao longo da nossa vida sem nós nos darmos conta dessa realidade.

Algumas câmaras são de acesso imediato e bem iluminadas, pois se encontram bem junto à entrada principal: são os traços da nossa personalidade que são estimulados pelo grupo social a que pertencemos e pelas pessoas com quem nos relacionamos. Somos estimulados a sermos justos, compassivos, amorosos, educados, polidos, altruístas, ponderados, pacificados, fraternos. Cada um pode listar as suas preferências. Gostamos de exibir essas galerias para as pessoas que visitam a nossa vida: vejam como eu sou!

Mas, nos níveis abaixo e depois que cessa a luz que vem da entrada principal, começa a haver escuridão. São lugares onde raramente nos aventuramos. Temos medo do que podemos encontrar nessas câmaras: agressividade, ódio, rancores, egoísmo, pulsão de morte, inveja, soberba, ira, desejos inconfessáveis. Mais sensato é não se aventurar por elas. Entretanto, uma ou outra vez emergem vozes na superfície provenientes desses lugares escuros e desconhecidos e que nos causam um frio na barriga: afinal, também sou isso? E começamos a nos entristecer quando damos conta dessa realidade.

Entretanto, em algum momento da nossa vida, mais cedo para uns, tardiamente para outros, repentina ou mansamente, uma luz forte adentra nessas cavernas. A luz a tudo ilumina, percorrendo cada galeria, por mais recôndita que seja, exibindo aos nossos olhos o mapa da nossa geografia humana, revelando aquilo que somos na nossa totalidade.

Uma vez que tenha passado esse lampejo de luz, a escuridão volta aos lugares de costume. Mas, algo se passa em nós: perdemos o medo de nos aventurarmos e visitarmos esses lugares escuros que, agora, já não nos são mais estranhos.

............

É assim a manifestação da graça de Deus na nossa vida. Por pura graça, somos um dia inundados pela luz de Deus, o Verbo Encarnado, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9). A graça nos revela aquilo que realmente somos no momento presente e nos introduz no caminho da compreensão de quem Deus verdadeiramente é.

A luz da graça nos desnuda diante de nós mesmos. Ficamos nus, como nossos primeiros pais no paraíso. Mas, diferentes deles, não nos sentimos envergonhados diante de Deus nem diante de nós mesmos. Pois, por mais difícil e doloroso que seja o contacto e a constatação desses lugares sombrios na nossa vida, é Deus mesmo quem nos toma pela mão e nos conduz através deles. E, no momento oportuno, vamos ter a possibilidade de descobrir: da câmara mais escura e sombria pode emergir a santidade, manifestação da presença santificadora de Deus na nossa vida.

Ano Novo

O Ano Novo 2006 pode ser um renovado convite à disposição de cada um em manifestar-se com sinceridade, em ser generoso, em agir com ousadia, em desfazer o “cinzentismo” das situações aparentemente inócuas da vida quotidiana, e em chegar mesmo a expor-se correndo o risco do ridículo. Tal só é possível concretizar-se a partir de uma auto-estima positiva. Quem tem de si mesmo uma valorização positiva, isto é, confia na sua própria pessoa e nas suas capacidades, aceita-se pacificamente na sua realidade pessoal, torna-se independente face aos juízos superficiais dos outros e não sente necessidade de conceber comportamentos desonestamente protectores e egocêntricos. Quem - julgando-se a si mesmo aceitável sem lamentações, olhando o mundo sem desconfiança, sem necessidade de atitudes defensivas, nem hipocrisia, nem o esforço de impressionar a todo o custo - procura agir na simplicidade e na verdade.

«Deus omnipotente, eterno, justo e misericordioso, concede-nos a nós, miseráveis, que por ti façamos o que sabemos que tu queres, e sempre queiramos o que te apraz, para que, interiormente purificados, interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e mediante somente a tua graça, chegar até ti, ó Altíssimo, que, em Trindade perfeita e em simples Unidade, vives e reinas e tens toda a glória, ó Deus omnipotente, por todos os séculos dos séculos. Amen.»
São Francisco de Assis, Oração, in Carta a toda a Ordem

E a Palavra se fez Poesia

Na introdução do seu Evangelho, João resume de maneira magistral um dos dois pólos da fé cristã, a Encarnação de Deus: “A Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós” (Jo 1,14).

O mistério da Encarnação de Deus celebrado no Natal pode ser apreendido correctamente, num primeiro momento, como o facto de que Deus assume um corpo humano. O nosso corpo é a expressão mais clara da nossa existência, é o centro de irradiação da nossa presença. É com o nosso corpo que nos relacionamos com as demais pessoas e criaturas, é com nossos braços que acolhemos as pessoas amadas e nos reconciliamos com quem nos feriu. É com o corpo que homem e mulher se juntam para gerar nova vida.

A Encarnação do Verbo num corpo humano, portanto, deita por terra certa compreensão da nossa corporeidade que vê o nosso corpo como obstáculo à santificação e à união divina, numa atitude esquizofrénica que proclama a ressurreição do corpo após a morte ao mesmo tempo em que busca a sua mortificação durante a vida presente.

Uma verdade fundamental expressa com a Encarnação da Palavra é simples: o corpo de que somos formados e a matéria onde nos inserimos são bons em si mesmos. Toda a matéria e toda a vida têm a sua origem nas relações amorosas da Comunidade Trinitária.

Entretanto, não podemos reduzir a Encarnação da Palavra Divina ao facto de que um corpo humano foi formado no seio de Maria para acolher a Palavra, por mais grandiosa que seja essa dimensão corpórea da Encarnação. Para podermos entender a profundidade e o sentido desta afirmação do Evangelista João - E a Palavra se fez carne e veio habitar no meio de nós -, poderíamos desenvolvê-la com algo parecido com o seguinte:

A Palavra se fez comunicação, se fez juras de amor entre os enamorados, se fez música e poesia, se fez dança e festa, se fez refeição e confraternização, se fez oração solitária e oração compartilhada, se fez comunhão de vida e união de corações.

A Palavra se fez mão samaritana para socorrer quem está caído, se fez abraço para acolher os pecadores, se fez encontros que curam e que libertam, se fez gestos de amor entre pais e filhos, entre marido e mulher e entre companheiros de caminhada.

A Palavra se fez jovem e idoso, se fez homem e mulher, se fez criança com Síndrome de Down e criança altista, se fez pai e se fez mãe. A Palavra se fez dor e enfermidade, se fez silêncio e solidão, se fez ira e agressividade, se fez sofrimento e morte.

Em resumo: tudo aquilo que é humano – o pecado fica de fora, pois ele é justamente o que nos desumaniza – foi assumido, santificado e plenificado pela Encarnação de Deus no ventre de Maria. O humano é querido e amado por Deus. Não há, portanto, caminho de salvação possível fora da nossa realidade humana. Apenas conhecendo, assumindo e amando a nossa própria realidade humana seremos capazes de trilhar o caminho de salvação inaugurado por Jesus, a Palavra feita humanidade.

Quem pensa que o caminho de santificação passa por uma fuga das nossas realidades humanas – por mais conflituosas que possam parecer – faz o caminho inverso daquele assumido por Jesus. Mas, também esses serão, um dia, iluminados em sua humanidade pelo Verbo, “Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina” (Jo 1,9).

Martírio

«Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver caridade,
sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver caridade, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver caridade, de nada me aproveita.»
S. Paulo, 1Cor 13, 1-3


«Onde mora a caridade e a sabedoria,
aí não há nem temor nem ignorância. (...)
Onde mora a misericórdia e discrição,
aí não há nem superfluidade nem dureza de coração.»
S. Francisco de Assis, 27.ª Exortação Espiritual

Fui à missa. E ouvi... Aquela homilia! Aquele jeito imperador de indicar um caminho de martírio. Aquela ideia subjacente de um rebanho como corpo perfeitamente disciplinado e piedoso. Aquela espécie de magistério que não admite dúvidas ou suspeitas, que não tolera o menor desvio, e me fez lembrar «a santa intransigência, a santa coacção e a santa insolência». Aquele estilo profético que me faz pensar sempre quanto um profeta, com carisma ou não, devia ter cuidado em não tomar os seus próprios desejos como revelação divina, nem conceder respostas divinas sobre casos particulares. Aquela tremenda presunção de se julgar obedecido, por força do seu “poder” sacerdotal, esquecendo que a suprema obediência só pode provir de um acto livre de supremo discernimento. Aquele indomável prazer de se apresentar como «sábio, discreto e experiente» no discernimento, fazendo parecer que o povo não tem esse dom de captar a vontade de Deus para a realizar. Aquela secular tentação de evitar a todo o custo qualquer incerteza no discernimento, como se o seu ensinamento fosse o único capaz de oferecer segurança na decisão e na escolha. Aquela irreprimível desconfiança sobre a capacidade de os outros católicos entenderem por experiência que a “segurança” subjectiva é a abertura confiante e humilde para caminhar como Jesus caminhou. Aquela homilia tornou-se no que nunca devia ter sido: uma insensatez.

Nota:

Hoje celebra-se Santo Estêvão, diácono, mártir, séc. I.

De acordo com os Actos dos Apóstolos, Estêvão, cheio de graça e de força, como pretexto de sua autodefesa, aproveitou para iluminar as mentes de seus adversários. Primeiro, resumiu a história hebraica de Abraão até Salomão, em seguida afirmou não ter falado contra Deus, nem contra Moisés, nem contra a Lei, nem fora do Templo. Demonstrou, de facto, que Deus se revelava também fora do Templo e se propunha a revelar a doutrina universal de Jesus como última manifestação de Deus, mas os seus adversários não o deixaram prosseguir no discurso, "taparam os ouvidos e atiraram-se todos contra ele, em altos gritos. Expulsaram-no da cidade e apedrejaram-no. "Dobrando os joelhos debaixo de uma tremenda chuva de pedra, o primeiro mártir cristão repetiu as mesmas palavras de perdão pronunciadas por Cristo sobre a Cruz: "Senhor, não os condenes por causa deste pecado."

Carta aberta aos meus amigos em tempo de Natal

«Se os escritores tivessem que esperar viver integramente o que dizem, não existiria no mundo nenhum livro, excepto a Bíblia. Apesar da distância entre a vida do escritor e o que diz, é necessário não calar-se, sobretudo quando os autores tentam viver o que escrevem; e o que escrevem pode humanizar, se não a muitos, pelo menos a alguns homens».
José António Merino


A.D. 2005

Paz e Bem!


De novo o Natal do Menino em Quem Deus habita fisicamente o mundo, Jesus de Nazaré, o Cristo, que quer dizer o Messias, o Ungido do Senhor!

Neste Menino, Deus se revelou de modo definitivo. E desde então acompanha a humanidade na sua peregrinação nesta terra. É certo que hoje não se encontra Jesus como puderam encontrá-Lo os pastores, os apóstolos, as pessoas do seu tempo. Mas Ele está aí humanamente no meio de nós, em tantos de nós, meninos que fomos e somos, pois cada encontro acontece no plano da corporeidade.

O amor de Deus tornou-se sorriso humano! A humanidade do Menino que mostrou como Deus quer conviver com os homens e as mulheres, vivendo também a doçura dos laços terrenos e a ternura das amizades. Por isso, não surpreende que, nesta época, nos aproximemos mais uns dos outros com sentimentos de ternura e paz, a celebrar os laços que nos ligam, reforçando-os com alegria. É esta a razão de vos escrever!

Resisto quanto posso a fazer desta carta uma mensagem de natal ao estilo de quem conta fábulas, discorre sobre teorias filosóficas, ou despacha "sermão" para piedosos sem alma; perfeitos, mas sem identidade; iluminados, mas indiferentes. Sei bem quanto fastio vos provocam as declamações daqueles que, sentindo-se sempre em dever de despender algumas boas palavras convosco, recorrem a prontuários dos mais indisponíveis fraseados. Nem tampouco me passa despercebido que já me conheceis o suficiente para saberdes que a minha escrita parte de um coração confiante em Deus que nem sempre se deixa encantar por quem sabe falar melhor; nem sempre dá a precedência ao canto gregoriano, diante dos dignos suspiros dos pobres; nem sempre se deixa seduzir pelo perfume do incenso, tanto mais quanto se dá conta do mau cheiro que sai dos subterrâneos da história.

Estimo-vos profundamente e sinto-me unido a vós pelo amor e também na partilha da fé em Jesus Cristo e pela experiência nem sempre fácil de a traduzir em palavras e actos no quotidiano da vida. Agradeço-vos todo o bem que recebo de vós, através da beleza dos vossos sentimentos, da verdade com que partilhais o vosso pensar, da gratuidade com que vos ofereceis e dais do que vos pertence, da pureza dos vossos olhares, da alegria dos vossos sorrisos, da simplicidade dos vossos gestos, do silêncio com que me acompanhais em momentos no quais as palavras sobram porque me basta a vossa presença serena e segura.

É gratificante saber que me consideram uma mediação de confiança na bondade da proposta franciscana de viver Jesus Cristo hoje, e um apoio segundo o Espírito, capaz de ajudar no discernimento por entre as dúvidas e incertezas típicas dos abanões da História presente. Em consequência, espero poder servir-vos nas vossas necessidades e nos vossos interesses, a fim de que as opções e as decisões sejam as mais conformes ao Evangelho e, por isso, resultem na felicidade querida por Deus para cada um de vós.

Reconheço os meus limites, mas não desanimo diante dos desafios. E vós sois o desafio maior da minha vida, pois ser convosco para vós implica amar-vos, supõe aquele sair de mim mesmo, que só com o auxílio de Deus é possível.

Aceitar disponível e generosamente, por amor, sair de si próprio é também celebrar o Natal, pois que Deus encarne num neonato é um mistério de fé e que só um amor infinito pode justificar. O amor de Deus pelo homem e pela mulher tem este «excesso» que a nossa mentalidade não consegue compreender: nasce de Maria e os seus primeiros sinais de vida são num estábulo entre animais, envolvido em panos e protegido por José naquele refúgio pouco confortável. Assim é também o «excesso» do nosso amor capaz de sair de si para amar o que no outro quer ser amado, particularmente em contextos de maior carência e vulnerabilidade humanas.

O Natal de Jesus é o anúncio de uma Boa Nova que se propõe chegar a todos os homens e a todas as mulheres que desejam relações humanas pacíficas e seguras, procuram um sentido pleno para a vida e esperam, antes que anoiteça, um futuro melhor e feliz.

A esperança que, segundo D. Tonino Belo, bispo italiano já falecido, ex-presidente da Pax Christi, e cujos escritos ainda hoje me influenciam, reaparece no início de um novo ano, a fazer olhar a existência humana com a coragem de contrariar a tendência de um eros mercantil que corrompe na raíz as relações interpessoais, desfaz a comunhão, fragmenta a intimidade, ridiculariza a família, comercializa a mulher e o homem, com os postulados de marketing da publicidade televisiva, despersonaliza irremediavelmente a sexualidade reduzindo-a a uma variável da ambição de poder.

A esperança de uma existência que não se calcula com os parâmetros dos valores da bolsa, nem com os sucessos medidos por um «aplausómetro» das plateias, ou com os índices de agrado das multidões.

A esperança de quem está reduzido à impotência por uma doença irreversível ou por um imprevisto declínio da saúde ou por um fatal acidente na estrada, e que por isso se coloca a pergunta «que estou aqui a fazer neste mundo?», pois quando se sofre, é difícil fazer da necessidade virtude, se não vem uma força do alto.

A esperança de quem não se deixa contagiar pelos que são lentos nas escolhas, pelos especialistas da perplexidade, pelos contabilistas pedantes dos prós e dos contras, pelos indecisos até à paranóia antes de tomar uma decisão, pelos obcecados na dúvida, perenemente incapazes de meter-se a caminho.

A esperança de quem tem a coragem de sair da ambiguidade e consegue romper com uma absurda paixão que sustenta a infidelidade, pois sabe que não só o amor exige fidelidade, mas também a fidelidade “protege” o amor. Todo o esforço por ser fiel, especialmente nos momentos de tensão forte, se repercute aumentando, purificando e transformando o amor dos esposos.

A esperança de quem percebe que, ou por defeito de confiança na vontade de Deus, ou por excesso de cálculo sobre as suas próprias forças, ou por um desequilíbrio de relações entre debilidade e esperança, ou quem sabe por qualquer misterioso desígnio, é muito frequente a coexistência de Deus com a insatisfação crónica do espírito.

A esperança de quem se compromete na Igreja, a qual tem tanta dificuldade de entregar-se ao vento do Espírito e muitas vezes dá a impressão de não estar totalmente liberta da “prudência” de recorrer aos fermentos mundanos do poder e do triunfo.

A esperança de quem sabe que «a proposta do perdão não é de imediata compreensão nem de fácil aceitação e chega mesmo a ser uma mensagem de certo modo paradoxal», mas crê firmemente que é necessário perdoar, pois «cada ser humano abriga dentro de si a esperança de poder retomar o percurso da vida sem ficar para sempre prisioneiro dos próprios erros e culpas. Sonha poder levantar de novo o olhar para o futuro, para descobrir ainda perspectivas de confiança e empenho».

A esperança de quem lê esta carta e não cai na tentação de julgar o seu autor, mas aceita as verdades nela contidas e sabe que quem escreveu também se sente implicado nas palavras escritas.

A esperança, que também é a minha, de que ninguém que nos procure se vá embora sem o melhor de nós próprios. Não existe cepticismo que possa atenuar a explosão do anúncio: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoira. (...) Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».

O Senhor vos dê a paz!
Frei Luís

Humildade e autenticidade

«Bem-aventurado o servo que não se tem por melhor quando os outros o louvam e honram, do que quando o tratam por pessoa de nada, simples e desprezível, pois quanto vale o homem aos olhos de Deus, isso vale e não mais.»
S. Francisco de Assis, Exortação 19ª, 1-2.

«Bem-aventurado aquele que por suas palavras e por seus actos não quer aparecer diferente daquilo que a graça de Deus o fez».
“Beatus ille, qui non vult videri in suis verbis et moribus nisi in illa compositione, in qua divina gratia composuit eum”.
Beato Frei Egídio de Assis, Dicta, cap. IV,13


Aparecer indica, no “dito” acima citado, o modo como a pessoa se manifesta e, ao mesmo tempo, é percepcionada pelos outros. Daqui a importância de que nada, nem as palavras nem os actos, exprima uma realidade que não seja coincidente com a verdade da própria pessoa. É que a autenticidade consiste em que a pessoa se conheça a si própria tal como é, em aceitar também os aspectos negativos que em si descobre e em ter a franqueza de apresentar-se aos outros com um rosto límpido, evitando esconder-se por detrás do “papel” que porventura desempenha e que, aparentemente, lhe é mais gratificante do ponto de vista psico-social.

A tentação de esconder-se por detrás do “papel” corresponderá forçosamente a enveredar pelo caminho da hipocrisia e do exibicionismo, no seu sentido negativo [1], mostrando-se menos do que é, a fim de chamar a atenção sobre si mesma com modos fingidamente humildes, e deste modo vencer a ameaça da reprovação e da rejeição por parte dos outros. Tal resulta da dificuldade ou mesmo incapacidade de aceitar-se tal como é, sobretudo nos seus defeitos, gerando o medo da insegurança que, por sua vez, provoca a necessidade de comportar-se de modo a sentir-se aprovada e acolhida. Para isso, não se inibe, se necessário, de fazer uso de artifícios com os quais consiga “extorquir” dos outros o que lhe é vantajoso, como se isso simplesmente lhe fosse devido.

Tentando, então, arrancar o reconhecimento de si mesma por parte dos outros, a pessoa comporta-se em formas que, de certo modo, Angelini chama de teatralidade, compreensíveis até certo ponto. Este ponto é aquele em que se reconhece a necessidade do recurso a um mínimo de teatralidade, a fim de que os outros se dêem conta da sua presença, para que aquilo que ela é e pode seja reconhecido por todos. O importante é que seja uma teatralidade sábia, dissimulada com habilidade, de tal maneira a induzir os outros a impressão prevalente do prazer. Neste sentido, o que é necessário é se-duzir, conduzir os outros para si sem violência, o que não lhe tira inevitavelmente o carácter de teatralidade [2]. No entanto, o que se afirma sobre a “teatralidade” como instrumento aceitável de fazer-se notar pelos outros, não deve jamais ser confundida com a negativa inclinação da pessoa que, saindo de si mesma, confia-se unicamente ao olhar para ajuizar da consistência e do valor de todas as coisas, retendo-se na superficialidade onde têm primazia as aparências sobre a própria verdade da pessoa.

“As aparências iludem” é um provérbio popular que exprime em forma de aforismo a experiência quotidiana de quem descobre, neste caso, que a outra pessoa é exactamente o contrário ou, pelo menos, bastante diferente do que é na realidade. Tal descoberta revela a mentira que é incompatível com o ser humilde, pois o fruto da humildade é o conhecimento da verdade [3].

A verdade está na base da autenticidade que é a manifestação da pessoa tal qual é, «pois, quanto vale o homem aos olhos de Deus, isso vale e não mais» [4], instaurando relações livres e genuínas consigo mesma, com os outros e também com Deus. Tal é possível quando a pessoa fundamenta a imagem positiva de si mesma segundo a verdade, «não sobre qualidades pessoais de índole física ou psíquica, mas sim sobre a consciência do amor infinito que Deus nutre por cada um, e sobre a consideração cheia de espanto das grandes obras que ele realiza na vida de cada um» [5].

Neste sentido resulta coerente a íntima ligação entre a humildade e a autenticidade. Com efeito, considerada a autenticidade como uma experiência de profunda abertura da pessoa aos outros na verdade de si mesma, não tem outra forma de expressão que não seja pela via da humildade cujo fruto é alcançar o conhecimento da verdade. A humildade é verdade, e a pessoa é criada pela Verdade para a verdade. A Verdade que implica agir sempre em conformidade com ela mesma, o que comporta amorosa e constante busca e aprofundamento num esforço contínuo de harmonização e de síntese entre a verdade revelada e a verdade da pessoa em si mesma adquirida na experiência directa. A verdade que é o aspecto inteligível, perceptível do ser. A verdade, por isso, é tudo. Como Deus é tudo. E Deus é Verdade. A Verdade que gera a liberdade na qual toda a manifestação pessoal é profundamente autêntica (cf. Jo 8, 31-32).

Uma liberdade que, por um lado, a nível humano, é vivida na base de uma concepção positiva das pessoas e da natureza, porque a pessoa é capaz de maior amor, de identificação mais perfeita, de uma maior redução das barreiras do seu eu; tem tendência a ser gentil e paciente, com profundo sentimento de comunhão, de benevolência, de afecto e de amizade; procura a autorealização entendida como o conhecimento da vontade de Deus que olha pessoalmente a cada um, como criatura irrepetível, e deseja com ardor corresponder-lhe adequadamente, empregando para isso todas as próprias forças e o resultado positivo consequente.

Por outro lado, em perspectiva sobrenatural, revela-se como expressão de fé em Deus que é Pai e que aceita cada pessoa sem impor-lhe condições [6].

É verdade que tudo isto pode parecer sobre-humano quando confrontados particularmente com a atracção que se vive hoje no sentido de valorizar a imagem, idolatrar as aparências, consumir uma “espiritualidade” sem corpo que se presta a sentimentalismos individuais, mitos pessoais criados subjectivamente sem uma hierarquia, nem institucional nem de valores, porque privada da participação colectiva, ou melhor dizendo, assembleia viva de fiéis. O palco das aparições está demasiado cheio de luzes artificiais, os rostos desfigurados com tantas máscaras e a voz não tem o tom da autêntica simplicidade porque deve obedecer primeiramente aos novos cânones da comunicação que se baseiam no espectáculo. Declamam-se textos alheios, procurados e encontrados em novos sincretismos, persuadidos de que assim serão escutados com interesse maior do que se ouvissem a “pobreza” das palavras ditas com sobriedade. E isto porque, talvez, lhes falte aquela credibilidade que só o testemunho de vida poderá dar e que resulta da autenticidade com que se assumem as opções vitais.

Penso que, neste contexto, é urgente o retorno à humildade que não se confunde com “ingenuidade” ou com “romantismos”, nem tampouco é uma virtude convertida em objectivo a alcançar, mas que nasce da experiência de quem, antes de mais, se sente unido a Jesus Cristo com espírito de amor e adoração a Deus. Com efeito, «é mais importante conservar os dons do Senhor, do que adquiri-los».

Em conclusão, ser humilde não significa sobretudo um esforço constante e metódico da pessoa em criar hábitos correspondentes à virtude da humildade, segundo os costumes e as culturas de cada povo, mas essencialmente ser fiel a sim mesma tal como Deus a renovou nos acontecimentos salvíficos. Daqui a necessidade e a urgência de compreender como o esforço ascético pode integrar-se adequadamente na experiência pessoal espiritual. Trata-se de não pensar tanto no próprio sentido do dever e no próprio esforço pessoal, para envolver-se mais no amor de Cristo que o Espírito Santo oferece.

____________________________________

[1] Fala-se de sentido negativo do exibicionismo porque se admite que «no fundamento do exibicionismo está uma necessidade verdadeira da nossa pessoa; isso deve ser francamente reconhecido, mas nunca satisfeito nas formas distorcidas e objectivamente prepotentes do exibicionismo. A necessidade é o do reconhecimento, e até mesmo da atenção benévola e amigável do outro. Podemos chamar-lhe precisamente “necessidade”? (...) O reconhecimento não deve ser entendido, nem sobretudo vivido, como uma necessidade, mas como aspecto necessário do destino moral do homem: para que possamos querer e agir, é verdadeiramente necessário que procuremos autorização no consenso dos outros. A procura do consenso do outro assume neste sentido o valor de cultivo da amizade com ele. Mas se se trata realmente disto, então a procura do consenso exige por sua natureza o perfil da reciprocidade. A exibição, pelo contrário, não procura a reciprocidade, mas o espectáculo; induz à representação, em vez da comunicação» (in G. Angelini, Le virtú e la fede, Glossa, Milano 1994, 317).

[2] Cf. G. Angelini, Le virtú e la fede, 319.

[3] Cf. Bernardo di Chiaravalle, I gradi dell’umiltà. L’Amore di Dio, Introduzione, traduzione e note di Gaspare Mura, Città Nuova Editrice, Roma 1996, 82.

[4] Francisco de Assis, Admonitio 19,2, in Opuscula Sancti Patris Francisci Assisiensis, edição crítica de K. Esser, PP. Collegii S. Bonaventurae ad Claras Aquas (Quaracchi), Grottaferrata, Roma 1978, 75: «quantum est homo coram Deo, tantum est et non plus».

[5] G. Gozzelino, Al cospetto di Dio. Elementi de teologia della vita spirituale, Editrice Elle Di Ci, Leumann (Torino) 1989, 126.

[6] Naturalmente que não descuro as dificuldades implicadas na decisão de viver com autenticidade segundo a reflexão proposta que quero seja com o coração ao alto, mas também com os pés na terra. Por isso, julgo de interesse transcrever quanto refere M. Kinget a propósito da complexidade da sociedade actual que aumenta a interdependência humana, menosprezando o valor da autenticidade a nível das relações interpessoais: «Com efeito, quanto mais se torna complexa e organizada a vida em sociedade, tanto mais aumenta a interdependência humana, e tanto mais a autenticidade tende a dar lugar ao compromisso à diplomacia, às “abordagens oblíquas”. Observando a situação actual, damo-nos conta do facto que a manipulação vai substituindo mais a autoridade, a propaganda substitui a agressão, e a habilidade toma o lugar da força» (in C. Rogers, M. G. Kinget, Psicoterapia e relazioni umane, Torino, Boringhieri, 1970, 260).

E por isto o faço

«E o Senhor me deu tão grande fé nas suas igrejas, que nelas com simplicidade o adorava, dizendo assim: Adoramos-te, santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as tuas igrejas que estão por todo o mundo, e te louvamos, porque pela tua santa cruz remiste o mundo.
Depois disto, deu-me o Senhor e me dá tanta e tal fé nos sacerdotes que vivem segundo a norma da santa Igreja romana, pelas ordens que têm, que, se alguém me perseguir, quero recorrer a eles. E mesmo que eu tivesse tanta sabedoria quanta teve Salomão, se encontrasse os pobrezinhos sacerdotes deste mundo nas paróquias em que moram, não quereria aí pregar contra a sua vontade. E a eles e a todos os demais sacerdotes quero temer, amar e honrar como as meus senhores. E não quero considerar neles pecado, porque neles vejo o Filho de Deus, e são meus senhores. E por isto o faço: porque não vejo coisa alguma corporalmente, neste mundo, daquele altíssimo Filho de Deus, senão o seu santíssimo Corpo e Sangue, que eles recebem e só eles aos outros administram.»
S. Francisco de Assis, Testamento 4-10



Ajoelhei-me diante do padre para confessar cá umas coisitas que me incomodavam. Fez menção a que me sentasse confortável na cadeira perto dele sorrindo afavelmente. Sentei-me então reforçado interiormente na decisão de soltar os meus incómodos. Falei toda a verdade de mim. Nada escondi ao seu conhecimento que pudesse servir-lhe para melhor me ajudar no caminho espiritual. Observava-me com discrição interrompendo-me de vez em quando a confirmar toda a sua atenção sobre a minha confissão. Nunca lhe notei uma qualquer expressão de espanto nem um só sinal reprovador. Quando calei as palavras, fixei os meus olhos no chão, esperando do padre uma palavra iluminadora e confortante. Ele tocou-me respeitosamente com a sua mão no meu ombro e eu levantei o rosto na sua direcção. O seu olhar de pai cativou-me e as suas palavras de sábio ouvinte de Deus ainda agora ecoam no meu íntimo. Jamais esquecerei aquele encontro e lembro todos os dias aquela feliz pergunta: «Se não fosses o que és, quem te garante que serias melhor do que és?». Exortou-me a que continuasse perseverante na oração, firme na fé e dedicado no amor com viva esperança. Absolveu-me e abençoou-me em nome de Jesus Cristo sem qualquer sermão de moralismo culpabilizante. À despedida, ofereceu-me um abraço cuja força percebi da sua paternidade espiritual qual pai de um filho pródigo. Senti-me liberto e recuperado. Ainda hoje se não sou pior, é porque aprendi com ele a saber ser, sendo o melhor possível, todos os dias!

Vede a vossa dignidade

«Vede a vossa dignidade, irmãos sacerdotes, e sede santos, porque também ele é santo (Lev 19, 2). E, como por motivo deste mistério, o Senhor mais que a todos vos honrou, assim vós amai-o, reverenciai-o e honrai-o mais que todos. Ó miséria grande, ó miseranda fraqueza, terde-lo vós assim presente, e ocuparde-vos de qualquer outra coisa do mundo! Que o homem todo se espante, que o mundo todo trema, que o céu exulte, quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está Cristo, o Filho de Deus vivo! Ó grandeza admirável, ó condescendência assombrosa , ó humildade sublime, ó sublimidade humilde, que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus, se humilde a ponto de se esconder, para nossa salvação, nas aparências de um bocado de pão. Vede, irmão, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações (Sal 61, 9); humilhai-vos também vós para que ele vos exalte (1Ped 5,6). Em conclusão: nada de vós mesmos retenhais para vós, a fim de que totalmente vos possua aquele que totalmente a vós se dá.»

S. Francisco de Assis, Aos irmãos sacerdotes,
in Carta a toda a Ordem 23-29



Hoje, mais do que nunca, espera-se do bispo e do padre o bom exemplo nas relações humanas, manifestando-se com afabilidade, com mansidão, com delicadeza de trato, com compreensão pelo sofrimento das pessoas, com atenção aos problemas concretos do povo, com espírito de solidariedade efectiva e afectiva, com firmeza na denúncia das injustiças, com capacidade de aguentar uma oposição nem sempre movida por boas intenções e tantas vezes violenta, com o discernimento constante das prioridades no bem estar daqueles que são confiados aos seus cuidados de pastor... etc.

É verdade que nem todos os bispos e os padres têm o dom de uma comunicação com o efeito atraente de suscitar nas pessoas uma adesão forte ao Senhor e, menos ainda, de motivar a um compromisso profundo e activo nas comunidades eclesiais e na sociedade em geral, como fermento na massa, sal da terra e luz do mundo!

Mas o pouco empenhamento dos cristãos nas suas comunidades deve-se apenas e essencialmente a uma deficiente comunicação de alguns bispos e padres?! Ou será também devido à inaceitável incoerência, algumas vezes, entre o que estes dizem e o que vivem realmente, mais do que às limitações inerentes à sua condição humana e que o povo, regra geral, até compreende e aceita?! Ou também a uma preocupação exagerada na gestão patrimonial dos bens materiais, e uma religiosidade popular tão devocional e pouco sensível à caridade fraterna ou solidariedade?! Ou ainda à ausência de uma dedicação livre e gratuita, fundada numa sadia relação psico-afectiva e espiritual com as pessoas a quem servem no seu ministério sacerdotal, acabando por suscitar o mero atendimento em serviços religiosos que o povo se habituou a exigir dos seus padres?! Ou também à pouca vida espiritual de alguns sacerdotes, que fomentam um “sacramentalismo” incapaz de realçar as suas implicações na vida social e comunitária, e menos ainda de estimular à via mística da vida cristã?! Ou deve-se também a uma excessiva interpretação literal da Bíblia, ou à exagerada “dissecação exegética” que descarna a Palavra de Deus, dificultando o compromisso com Cristo e, por isso, incapazes de arriscar nos insondáveis desígnios de Deus, conscientes de que, ainda assim, podem errar nas suas escolhas e nas suas decisões?! Ou não será também por causa de uma caterva de documentos do Magistério da Igreja que ficam bem nas eloquências eclesiásticas, mas em muitos casos quase intraduzíveis no quotidiano das pessoas; e as homílias que enfastiam o povo ou o irritam desnecessariamente?! Ou ainda, por resistirem ao sentido evangélico da renúncia e do sacrifício, que penso faz parte também do ministério sacerdotal, evitando conformar-se ao exemplo do Crucificado, mais do que por um hedonismo criticável na sociedade actual que afecta também a dimensão sacrificial dos cristãos?! Ou será que se deve também ao rigorismo legalista na aplicação das leis canónicas, tantas vezes parecendo esquecer a necessária compreensão do drama humano na sua fragilidade e falibilidade, que implica a misericórdia, o perdão e a reconciliação para lá de todos os «Sábados»?!

Longe de mim julgar quem quer que seja. Depois de ter ouvido Jesus dizer «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» (Jo 8,7), retirei-me a combater para sempre contra a tentação de ser juiz do meu irmão. A Deus o que é de Deus, Misericordioso! Eu não sou um modelo de virtudes e menos ainda um exemplo de cristão «justo» e «puro». Sou simplesmente, como muitos outros católicos, dos que não dispensam uma reflexão séria e permanente, sob o juízo da própria consciência, para viver no esforço quotidiano de fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo e de obediência na fé aos legítimos Pastores da Igreja!

Memória e Profecia

Há pessoas que nos marcam indelevelmente e são para nós modelos de pensamento e de acção. Por exemplo, S. Francisco de Assis, cujo testemunho cristão autêntico, dedicado e firme, me iniciou e tem iluminado nas minhas opções e decisões, no meu modo de viver e no meu trabalho diário ao serviço dos outros, na Ordem Franciscana, na Igreja e na sociedade. Mas não se pense que uma tal influência dispense o exercício do discernimento permanente, pois o meu juízo sobre o que posso acolher ou devo rejeitar está e estará sempre marcado pelo limite da inteligência humana, incapaz de abarcar todo o mistério da Graça de Deus. Leio e retenho com muita admiração o que o Santo de Assis deixou como herança da sua experiência de vida, consciente de que não tenho de reproduzir a sua linguagem e tampouco copiar todos os seus gestos. Procuro pensar e ser - também eu - um cristão autêntico, inspirado no seu testemunho de vida, é certo, mas com o vocabulário adequado aos tempos que correm e agindo dentro de um quadro hermenêutico eficaz hoje, sem prejuízo da comunhão espiritual que nos une no seguimento do mesmo Senhor, Jesus Cristo.

Viver Cristo

«A Regra e Vida dos Irmãos Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada próprio e em castidade.»
S. Francisco de Assis, Regra bulada 1, 1

A Palavra de Jesus Cristo é capaz de florescer na terra pedregosa, de rasgar o egoísmo do mar que esconde e nega os seus peixes, de converter a água em vinho, de fazer que os mortos ressuscitem, os paralíticos andem, os cegos vejam e de que, não menos difícil que o anterior, aos pobres seja anunciada a Boa Nova. De tudo isso e muito mais é capaz a Palavra de Jesus. É aqui que radica a minha esperança, embora reconheça que nem sempre com tranquilidade. A esperança é confiança prolongada no tempo. Tensão que necessita da lucidez que é deixar-se iluminar por Quem pode fazê-lo infinitamente com uma Palavra que é Espírito e Vida. Tudo com sensatez e loucura em doses iguais!

Para que viva o povo

«"Eu não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor" (Mt 20,28). Os que receberam o ofício de mandar nos outros, tanto se gloriem desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de lavar os pés aos irmãos. E sentirem-se, quando os dispensam do ofício, mais do que se sentiriam se os houvessem dispensado de lavar os pés aos irmãos, sinal seria de que entesoiravam para si riquezas, que são perigo para a própria alma.»
S. Francisco de Assis, Exortação 4ª., 1-3
O ser pastor na Igreja é um ofício arriscado, mas apaixonante, porque a sua missão é a mesma que a de Cristo, uma missão de libertação. Ora, o pastor por excelência na diocese é o Bispo, que para muitos continua a ser um personagem distante, misterioso. Uma relíquia do passado. Parece um guardião da religião e da moral, executor das ordens de Roma, como faz o governador civil em relação ao governo da nação. Vive à sombra da catedral num velho palácio. Mas também muitos se admirariam ao descobrir que um bispo é um homem que vive, fala, participa, compromete-se e expressa a sua fé. Não é um autómato que diz o que há que dizer, nem um personagem inacessível. Nas palavras do Bispo Óscar Romero (assassinado em plena missa), é o homem que decidiu dar a sua vida para que viva o povo a quem ama. Toda a autoridade na Igreja é um serviço e por isso as "dignidades" e as superioridades sobram. Quem duvide disto, veja o exemplo de Jesus Cristo! (cf. Jo 10, 1-10)

A força do exemplo

A personalidade de S. Francisco de Assis está no centro da aventura franciscana. Nos inícios do movimento nascido sob sua inspiração, ele foi o promotor, o inspirador e o protagonista das sucessivas escolhas do grupo. Mas, do momento em que acolhe como irmãos alguns que quiseram unir-se a ele, condescendeu também a que o seu projecto inicial se transformasse em projecto comunitário. Com os seus companheiros, Francisco partilhava as experiências de vida, a missão de pregador itinerante. Imitando a narração evangélica (Lc 9, 1-10), promovia ocasiões de encontro com os frades. Nestas circunstâncias ele manifestava os seus propósitos e o que o Senhor lhe tinha revelado (cf. 1Cel 30). Participava também aos companheiros as suas perplexidades, não se fiando nunca de si mesmo (cf. 1Cel 35); e com eles orava e procurava discernir a vontade de Deus.

Francisco não suportava ter dependentes, súbditos; para ele existiam apenas irmãos (fratres). E eram isso mesmo os seus companheiros. Confiava neles. Não tinha dificuldade em enviá-los dois a dois, em missão apostólica, por longo tempo, sem colocar-se tantos problemas de organização e de disciplina. Até ao fim da sua vida, teria acreditado infinitamente mais na força do exemplo do que na força do direito - não obstante que esta sua atitude suscitasse perplexidade dentro e fora do movimento franciscano.

A força do amor

«Quem aliis creaturis germanum effecerat vis amoris, mirum non est Creatoris insignitis imagine si germaniorem Christi caritas (2Cor 5, 14) faciebat.»

[2C, 172]

«A força do amor fizera-o irmão de todas as criaturas. Não é pois de surpreender que, mercê da caridade de Cristo, ele tenha sido muito mais irmão daqueles que o Criador fez à sua imagem.»

[2C, 172]

Site Meter