«Bem-aventurado o servo que não se tem por melhor quando os outros o louvam e honram, do que quando o tratam por pessoa de nada, simples e desprezível, pois quanto vale o homem aos olhos de Deus, isso vale e não mais.»
S. Francisco de Assis, Exortação 19ª, 1-2.
«Bem-aventurado aquele que por suas palavras e por seus actos não quer aparecer diferente daquilo que a graça de Deus o fez».
“Beatus ille, qui non vult videri in suis verbis et moribus nisi in illa compositione, in qua divina gratia composuit eum”.
Beato Frei Egídio de Assis, Dicta, cap. IV,13
Aparecer indica, no “dito” acima citado, o modo como a pessoa se manifesta e, ao mesmo tempo, é percepcionada pelos outros. Daqui a importância de que nada, nem as palavras nem os actos, exprima uma realidade que não seja coincidente com a verdade da própria pessoa. É que a autenticidade consiste em que a pessoa se conheça a si própria tal como é, em aceitar também os aspectos negativos que em si descobre e em ter a franqueza de apresentar-se aos outros com um rosto límpido, evitando esconder-se por detrás do “papel” que porventura desempenha e que, aparentemente, lhe é mais gratificante do ponto de vista psico-social.
A tentação de esconder-se por detrás do “papel” corresponderá forçosamente a enveredar pelo caminho da hipocrisia e do exibicionismo, no seu sentido negativo [1], mostrando-se menos do que é, a fim de chamar a atenção sobre si mesma com modos fingidamente humildes, e deste modo vencer a ameaça da reprovação e da rejeição por parte dos outros. Tal resulta da dificuldade ou mesmo incapacidade de aceitar-se tal como é, sobretudo nos seus defeitos, gerando o medo da insegurança que, por sua vez, provoca a necessidade de comportar-se de modo a sentir-se aprovada e acolhida. Para isso, não se inibe, se necessário, de fazer uso de artifícios com os quais consiga “extorquir” dos outros o que lhe é vantajoso, como se isso simplesmente lhe fosse devido.
Tentando, então, arrancar o reconhecimento de si mesma por parte dos outros, a pessoa comporta-se em formas que, de certo modo, Angelini chama de teatralidade, compreensíveis até certo ponto. Este ponto é aquele em que se reconhece a necessidade do recurso a um mínimo de teatralidade, a fim de que os outros se dêem conta da sua presença, para que aquilo que ela é e pode seja reconhecido por todos. O importante é que seja uma teatralidade sábia, dissimulada com habilidade, de tal maneira a induzir os outros a impressão prevalente do prazer. Neste sentido, o que é necessário é se-duzir, conduzir os outros para si sem violência, o que não lhe tira inevitavelmente o carácter de teatralidade [2]. No entanto, o que se afirma sobre a “teatralidade” como instrumento aceitável de fazer-se notar pelos outros, não deve jamais ser confundida com a negativa inclinação da pessoa que, saindo de si mesma, confia-se unicamente ao olhar para ajuizar da consistência e do valor de todas as coisas, retendo-se na superficialidade onde têm primazia as aparências sobre a própria verdade da pessoa.
“As aparências iludem” é um provérbio popular que exprime em forma de aforismo a experiência quotidiana de quem descobre, neste caso, que a outra pessoa é exactamente o contrário ou, pelo menos, bastante diferente do que é na realidade. Tal descoberta revela a mentira que é incompatível com o ser humilde, pois o fruto da humildade é o conhecimento da verdade [3].
A verdade está na base da autenticidade que é a manifestação da pessoa tal qual é, «pois, quanto vale o homem aos olhos de Deus, isso vale e não mais» [4], instaurando relações livres e genuínas consigo mesma, com os outros e também com Deus. Tal é possível quando a pessoa fundamenta a imagem positiva de si mesma segundo a verdade, «não sobre qualidades pessoais de índole física ou psíquica, mas sim sobre a consciência do amor infinito que Deus nutre por cada um, e sobre a consideração cheia de espanto das grandes obras que ele realiza na vida de cada um» [5].
Neste sentido resulta coerente a íntima ligação entre a humildade e a autenticidade. Com efeito, considerada a autenticidade como uma experiência de profunda abertura da pessoa aos outros na verdade de si mesma, não tem outra forma de expressão que não seja pela via da humildade cujo fruto é alcançar o conhecimento da verdade. A humildade é verdade, e a pessoa é criada pela Verdade para a verdade. A Verdade que implica agir sempre em conformidade com ela mesma, o que comporta amorosa e constante busca e aprofundamento num esforço contínuo de harmonização e de síntese entre a verdade revelada e a verdade da pessoa em si mesma adquirida na experiência directa. A verdade que é o aspecto inteligível, perceptível do ser. A verdade, por isso, é tudo. Como Deus é tudo. E Deus é Verdade. A Verdade que gera a liberdade na qual toda a manifestação pessoal é profundamente autêntica (cf. Jo 8, 31-32).
Uma liberdade que, por um lado, a nível humano, é vivida na base de uma concepção positiva das pessoas e da natureza, porque a pessoa é capaz de maior amor, de identificação mais perfeita, de uma maior redução das barreiras do seu eu; tem tendência a ser gentil e paciente, com profundo sentimento de comunhão, de benevolência, de afecto e de amizade; procura a autorealização entendida como o conhecimento da vontade de Deus que olha pessoalmente a cada um, como criatura irrepetível, e deseja com ardor corresponder-lhe adequadamente, empregando para isso todas as próprias forças e o resultado positivo consequente.
Por outro lado, em perspectiva sobrenatural, revela-se como expressão de fé em Deus que é Pai e que aceita cada pessoa sem impor-lhe condições [6].
É verdade que tudo isto pode parecer sobre-humano quando confrontados particularmente com a atracção que se vive hoje no sentido de valorizar a imagem, idolatrar as aparências, consumir uma “espiritualidade” sem corpo que se presta a sentimentalismos individuais, mitos pessoais criados subjectivamente sem uma hierarquia, nem institucional nem de valores, porque privada da participação colectiva, ou melhor dizendo, assembleia viva de fiéis. O palco das aparições está demasiado cheio de luzes artificiais, os rostos desfigurados com tantas máscaras e a voz não tem o tom da autêntica simplicidade porque deve obedecer primeiramente aos novos cânones da comunicação que se baseiam no espectáculo. Declamam-se textos alheios, procurados e encontrados em novos sincretismos, persuadidos de que assim serão escutados com interesse maior do que se ouvissem a “pobreza” das palavras ditas com sobriedade. E isto porque, talvez, lhes falte aquela credibilidade que só o testemunho de vida poderá dar e que resulta da autenticidade com que se assumem as opções vitais.
Penso que, neste contexto, é urgente o retorno à humildade que não se confunde com “ingenuidade” ou com “romantismos”, nem tampouco é uma virtude convertida em objectivo a alcançar, mas que nasce da experiência de quem, antes de mais, se sente unido a Jesus Cristo com espírito de amor e adoração a Deus. Com efeito, «é mais importante conservar os dons do Senhor, do que adquiri-los».
Em conclusão, ser humilde não significa sobretudo um esforço constante e metódico da pessoa em criar hábitos correspondentes à virtude da humildade, segundo os costumes e as culturas de cada povo, mas essencialmente ser fiel a sim mesma tal como Deus a renovou nos acontecimentos salvíficos. Daqui a necessidade e a urgência de compreender como o esforço ascético pode integrar-se adequadamente na experiência pessoal espiritual. Trata-se de não pensar tanto no próprio sentido do dever e no próprio esforço pessoal, para envolver-se mais no amor de Cristo que o Espírito Santo oferece.
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[1] Fala-se de sentido negativo do exibicionismo porque se admite que «no fundamento do exibicionismo está uma necessidade verdadeira da nossa pessoa; isso deve ser francamente reconhecido, mas nunca satisfeito nas formas distorcidas e objectivamente prepotentes do exibicionismo. A necessidade é o do reconhecimento, e até mesmo da atenção benévola e amigável do outro. Podemos chamar-lhe precisamente “necessidade”? (...) O reconhecimento não deve ser entendido, nem sobretudo vivido, como uma necessidade, mas como aspecto necessário do destino moral do homem: para que possamos querer e agir, é verdadeiramente necessário que procuremos autorização no consenso dos outros. A procura do consenso do outro assume neste sentido o valor de cultivo da amizade com ele. Mas se se trata realmente disto, então a procura do consenso exige por sua natureza o perfil da reciprocidade. A exibição, pelo contrário, não procura a reciprocidade, mas o espectáculo; induz à representação, em vez da comunicação» (in G. Angelini, Le virtú e la fede, Glossa, Milano 1994, 317).
[2] Cf. G. Angelini, Le virtú e la fede, 319.
[3] Cf. Bernardo di Chiaravalle, I gradi dell’umiltà. L’Amore di Dio, Introduzione, traduzione e note di Gaspare Mura, Città Nuova Editrice, Roma 1996, 82.
[4] Francisco de Assis, Admonitio 19,2, in Opuscula Sancti Patris Francisci Assisiensis, edição crítica de K. Esser, PP. Collegii S. Bonaventurae ad Claras Aquas (Quaracchi), Grottaferrata, Roma 1978, 75: «quantum est homo coram Deo, tantum est et non plus».
[5] G. Gozzelino, Al cospetto di Dio. Elementi de teologia della vita spirituale, Editrice Elle Di Ci, Leumann (Torino) 1989, 126.
[6] Naturalmente que não descuro as dificuldades implicadas na decisão de viver com autenticidade segundo a reflexão proposta que quero seja com o coração ao alto, mas também com os pés na terra. Por isso, julgo de interesse transcrever quanto refere M. Kinget a propósito da complexidade da sociedade actual que aumenta a interdependência humana, menosprezando o valor da autenticidade a nível das relações interpessoais: «Com efeito, quanto mais se torna complexa e organizada a vida em sociedade, tanto mais aumenta a interdependência humana, e tanto mais a autenticidade tende a dar lugar ao compromisso à diplomacia, às “abordagens oblíquas”. Observando a situação actual, damo-nos conta do facto que a manipulação vai substituindo mais a autoridade, a propaganda substitui a agressão, e a habilidade toma o lugar da força» (in C. Rogers, M. G. Kinget, Psicoterapia e relazioni umane, Torino, Boringhieri, 1970, 260).